Longas

A boa vista não me ilude mais

Diferente de outros longa-metragens sobre a capital, este não é exatamente um filme sobre a cidade, mas a partir de um fragmento desta. Ao lançar uma lupa sobre as histórias de personagens cujas vidas circundam o tradicional bairro da Boa Vista, o filme questiona as narrativas totalizantes da cidade, optando por um olhar mais fragmentado e descentralizado da vida urbana numa grande capital brasileira. No mais, o filme não fala de histórias do Recife, mas de histórias que poderiam lá acontecer.

As personagens em tela, apresentadas no livro e desenvolvidas no roteiro, não são, necessariamente,  recifenses. Seu olhar, é um olhar de fora, um olhar “estrangeiro”. O olhar de quem lá vive sem, necessariamente, de lar sê-lo. Estamos falando, na sua grande maioria, de personagens cuja cidade é menos um estilo de vida e mais, uma opção de sobrevivência. É o catador de materiais recicláveis, é o professor idoso aposentado e gay, é a proprietária de um botequim numa área soturna da cidade. São pessoas que, perfeitamente, poderiam buscar no Recife, na capital, antes de qualquer coisa, uma oportunidade de sobrevivência ou de poderem ser quem, de fato, são. 

Com o título de “A Boa Vista Não Me Ilude Mais”, o longa dirigido por Marlom Meirelles é fruto de uma adaptação de Allan Ribeiro e Violeta Rodrigues. O filme volta-se para um retrato da cena urbana recifense que é um olhar de estranhamento, de personagens que olham a cidade de fora pra dentro. As histórias sob exame exploram os antagonismos da cidade, dos dramas existenciais que perseguem a madame em tela nas primeiras cenas ao momento em que esta mulher atira contra o companheiro de uma travesti idosa de 80 anos, privando-a do seu amor, são exemplos de como as tramas vão se enlaçando ao olhar do espectador, transmitindo o sentido de que a vida humana não pode ser logicamente explicada, mas apenas apreendida e vivida.

“A Boa Vista Não Me Ilude Mais” foi desenvolvido a partir “Aqueles livros não me iludem mais”, publicado inicialmente em 2011, é, sem sombra de dúvidas, uma das experimentações literárias mais criativas de Cícero Belmar, premiado escritor e jornalista pernambucano, autor de um considerável número de romances, contos, peças de teatro e hoje, membro da Academia Pernambucana de Letras. Contista inveterado, Belmar explora os limites desta forma literária ao entrecortar o livro em 8 contos e 17 personagens que, apesar de possuírem uma unidade narrativa que os fazem individualmente autônomos, se entrelaçam através de tramas, acontecimentos e cenários que se intercomunicam.